{"id":653,"date":"2012-05-10T09:46:04","date_gmt":"2012-05-10T12:46:04","guid":{"rendered":"http:\/\/especial.caritas.org.br\/?p=386"},"modified":"2017-07-11T15:25:16","modified_gmt":"2017-07-11T18:25:16","slug":"vende-se-a-natureza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caritasne2.org.br\/site\/vende-se-a-natureza\/","title":{"rendered":"Vende-se a natureza"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s v\u00e9speras da Rio+20, \u00e9 imprescind\u00edvel denunciar a nova ofensiva do capitalismo neoliberal: a mercantiliza\u00e7\u00e3o da natureza. J\u00e1 existe o mercado de carbono, estabelecido pelo Protocolo de Kyoto (1997). Ele determina que pa\u00edses desenvolvidos, principais poluidores, reduzam as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa em 5,2%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Reduzir o volume de veneno vomitado por aqueles pa\u00edses na atmosfera implica subtrair lucros. Assim, inventou-se o cr\u00e9dito de carbono. Uma tonelada de di\u00f3xido de carbono (CO2) equivale a um cr\u00e9dito de carbono. O pa\u00eds rico ou suas empresas, ao ultrapassar o limite de polui\u00e7\u00e3o permitida, compra o cr\u00e9dito do pa\u00eds pobre ou de suas empresas que ainda n\u00e3o atingiram seus respectivos limites de emiss\u00e3o de CO2 e, assim, fica autorizado a emitir gases de efeito estufa. O valor dessa permiss\u00e3o deve ser inferior \u00e0 multa que o pa\u00eds ricos pagaria, caso ultrapassasse seu limite de emiss\u00e3o de CO2.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Surge agora nova proposta: a venda de servi\u00e7os ambientais. Leia-se: apropria\u00e7\u00e3o e mercantiliza\u00e7\u00e3o das florestas tropicais, florestas plantadas (semeadas pelo ser humano) e ecossistemas. Devido \u00e0 crise financeira que afeta os pa\u00edses desenvolvidos, o capital busca novas fontes de lucro. Ao capital industrial (produ\u00e7\u00e3o) e ao capital financeiro (especula\u00e7\u00e3o), soma-se agora o capital natural (apropria\u00e7\u00e3o da natureza), tamb\u00e9m conhecido por &#8216;economia verde&#8217;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A diferen\u00e7a dos servi\u00e7os ambientais \u00e9 que n\u00e3o s\u00e3o prestados por uma pessoa ou empresa; s\u00e3o ofertados, gratuitamente, pela natureza: \u00e1gua, alimentos, plantas medicinais, carbono (sua absor\u00e7\u00e3o e armazenamento), min\u00e9rios, madeira etc. A proposta \u00e9 dar um basta a essa gratuidade. Na l\u00f3gica capitalista, o valor de troca de um bem est\u00e1 acima de seu valor de uso. Portanto, tais bens naturais devem ter pre\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os consumidores dos bens da natureza passariam a pagar n\u00e3o apenas pela administra\u00e7\u00e3o da &#8216;manufatura&#8217; do produto (como pagamos pela \u00e1gua que sai da torneira em casa), mas pelo pr\u00f3prio bem. Ocorre que a natureza n\u00e3o tem conta banc\u00e1ria para receber o dinheiro pago pelos servi\u00e7os que presta. Os defensores dessa proposta afirmam que, portanto, algu\u00e9m ou alguma institui\u00e7\u00e3o deve receber o pagamento &#8211; o dono da floresta ou do ecossistema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A proposta n\u00e3o leva em conta as comunidades que vivem nas florestas. Uma moradora da comunidade de Katobo, floresta da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, relata:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Na floresta, coletamos lenha, cultivamos alimentos e comemos. A floresta fornece tudo, legumes, todo tipo de animal, e isso nos permite viver bem. Por isso que somos muito felizes com nossa floresta, porque nos permite conseguir tudo que precisamos. Quando ouvimos que a floresta poderia estar em perigo, isso nos preocupa, porque nunca poder\u00edamos viver fora da floresta. E se algu\u00e9m nos dissesse para abandonar a floresta, ficar\u00edamos com muita raiva, porque n\u00e3o podemos imaginar uma vida que n\u00e3o seja dentro ou perto da floresta. Quando plantamos alimentos, temos comida, temos agricultura e tamb\u00e9m ca\u00e7a, e as mulheres pegam siri e peixe nos rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Temos diferentes tipos de legumes, e tamb\u00e9m plantas comest\u00edveis da floresta, e frutas, e todo de tipo de coisa que comemos, que nos d\u00e1 for\u00e7a e energia, prote\u00ednas, e tudo mais que precisamos.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O com\u00e9rcio de servi\u00e7os ambientais ignora essa vis\u00e3o dos povos da floresta. Trata-se de um novo mecanismo de mercado, pelo qual a natureza \u00e9 quantificada em unidades comercializ\u00e1veis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa ideia, que soa como absurda, surgiu nos pa\u00edses industrializados do hemisf\u00e9rio norte na d\u00e9cada de 1970, quando houve a crise ambiental. Europa e EUA tomaram consci\u00eancia de que os recursos naturais s\u00e3o limitados. A Terra n\u00e3o tem como ser ampliada. E est\u00e1 doente, contaminada e degradada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Frente a isso, os ide\u00f3logos do capitalismo propuseram valorizar os recursos naturais para salv\u00e1-los. Calcularam o valor dos servi\u00e7os ambientais entre US$ 16 e 54 trilh\u00f5es (o PIB mundial, a soma de bens e servi\u00e7os, totaliza atualmente US$ 62 trilh\u00f5es). &#8220;Est\u00e1 na hora de reconhecer que a natureza \u00e9 a maior empresa do mundo, trabalhando para beneficiar 100% da humanidade &#8211; e faz isso de gra\u00e7a&#8221;, afirmou Jean-Cristophe Vi\u00e9, diretor do Programa de Esp\u00e9cies da IUCN, principal rede global pela conserva\u00e7\u00e3o da natureza, financiada por governos, ag\u00eancias multilaterais e empresas multinacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1969, Garret Hardin publicou o artigo &#8220;A trag\u00e9dia dos bens comuns&#8221; para justificar a necessidade de cercar a natureza, privatiz\u00e1-la, e assim garantir sua preserva\u00e7\u00e3o. Segundo o autor, o uso local e gratuito da natureza, como o faz uma tribo ind\u00edgena, resulta em destrui\u00e7\u00e3o (o que n\u00e3o corresponde \u00e0 verdade). A \u00fanica forma de preserv\u00e1-la para o bem comum \u00e9 torn\u00e1-la administr\u00e1vel por quem possui compet\u00eancia &#8211; as grandes corpora\u00e7\u00f5es empresariais. Eis a tese da economia verde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ora, sabemos como elas encaram a natureza: como mera produtora de commodities. Por isso, empresas estrangeiras compram, no Brasil, cada vez mais terras, o que significa uma desapropria\u00e7\u00e3o mercantil de nosso territ\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>por Frei Betto<\/em><br \/>\n_______<br \/>\n* Frei Betto \u00e9 escritor, autor, em parceria com Marcelo Barros, de &#8220;O amor fecunda o Universo &#8211; ecologia e espiritualidade&#8221; (Agir), entre outros livros. Twitter:@freibetto.<\/p>\n<ul class=\"ssb_list_wrapper\"><li class=\"fb2\" style=\"width:135px\"><iframe src=\"\/\/www.facebook.com\/plugins\/like.php?href=https%3A%2F%2Fwww.caritasne2.org.br%2Fsite%2Fvende-se-a-natureza%2F&amp;layout=button_count&amp;action=like&amp;show_faces=false&amp;share=true&amp;width=135&amp;height=21&amp;appId=307091639398582\" scrolling=\"no\" frameborder=\"0\" style=\"border:none; overflow:hidden;  width:150px; height:21px;\" allowTransparency=\"true\"><\/iframe><\/li><li class=\"twtr\" style=\"width:90px\"><a href=\"https:\/\/twitter.com\/share\" class=\"twitter-share-button\" data-url=\"https:\/\/www.caritasne2.org.br\/site\/vende-se-a-natureza\/\">&nbsp;<\/a><script>!function(d,s,id){var js,fjs=d.getElementsByTagName(s)[0],p=\/^http:\/.test(d.location)?'http':'https';if(!d.getElementById(id)){js=d.createElement(s);js.id=id;js.src=p+':\/\/platform.twitter.com\/widgets.js';fjs.parentNode.insertBefore(js,fjs);}}(document, 'script', 'twitter-wjs');<\/script><\/li><li class=\"gplus\" style=\"width:68px\"><div class=\"g-plusone\" data-size=\"medium\" data-href=\"https:\/\/www.caritasne2.org.br\/site\/vende-se-a-natureza\/\"><\/div><\/li><li class=\"ssb_linkedin\" style=\"width:64px\"><script src=\"\/\/platform.linkedin.com\/in.js\" type=\"text\/javascript\">lang: en_US<\/script><script type=\"IN\/Share\" data-url=\"https:\/\/www.caritasne2.org.br\/site\/vende-se-a-natureza\/\" data-counter=\"right\"><\/script><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s v\u00e9speras da Rio+20, \u00e9 imprescind\u00edvel denunciar a nova ofensiva do capitalismo neoliberal: a mercantiliza\u00e7\u00e3o da natureza. 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