{"id":652,"date":"2012-05-10T09:39:16","date_gmt":"2012-05-10T12:39:16","guid":{"rendered":"http:\/\/especial.caritas.org.br\/?p=378"},"modified":"2017-07-11T15:25:16","modified_gmt":"2017-07-11T18:25:16","slug":"o-poder-do-agronegocio-sobre-os-estados-na-rio20","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.caritasne2.org.br\/site\/o-poder-do-agronegocio-sobre-os-estados-na-rio20\/","title":{"rendered":"O poder do agroneg\u00f3cio sobre os Estados na Rio+20"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Com vasta experi\u00eancia na \u00e1rea agroecol\u00f3gica no Brasil, o economista Jean Marc Von Der Weid participou junto \u00e0 sociedade civil da ECO 92 e vem acompanhando desde a d\u00e9cada de 1980 os movimentos ambientais no Brasil. Atualmente \u00e9 coordenador de Pol\u00edticas P\u00fablicas da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) e membro da Articula\u00e7\u00e3o Nacional de Agroecologia (ANA).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta entrevista, ele fala sobre a perspectiva de fracasso da Rio+20, as for\u00e7as pol\u00edticas e interesses que est\u00e3o em xeque, a falsa vis\u00e3o ambiental da economia verde e aponta a agroecologia como solu\u00e7\u00e3o para muitos problemas clim\u00e1ticos e energ\u00e9ticos no planeta. Segundo o estudioso e militante, a tend\u00eancia \u00e9 uma regionaliza\u00e7\u00e3o da cadeia produtiva alimentar e a potencializa\u00e7\u00e3o da agricultura familiar para garantir a alimenta\u00e7\u00e3o dos povos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea pode primeiro contextualizar o evento que ocorreu no Rio de Janeiro em 1992 e os compromissos que foram cumpridos ou n\u00e3o nestes 20 anos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As diferen\u00e7as entre 1992 e a Rio+20 s\u00e3o radicais e contradit\u00f3rias. Porque hoje voc\u00ea tem muito mais cr\u00edtica sobre o modelo de desenvolvimento e o sistema capitalista no mundo, e muito mais informa\u00e7\u00e3o dos impactos ambientais. No entanto, naquela altura havia mais interesse dos governos em discutir esses problemas e enfrentar as quest\u00f5es. \u00c9 paradoxal, mas \u00e9 assim. Hoje as multinacionais e grandes empresas est\u00e3o atuando a fundo tanto nos espa\u00e7os nacionais para definir as pol\u00edticas e programas de seus governos na Rio+20, como participando das delega\u00e7\u00f5es oficiais e criando espa\u00e7os paralelos de debate. Houve uma s\u00e9rie de resolu\u00e7\u00f5es importantes do ponto de vista do meio ambiente e do desenvolvimento em 92, que hoje em dia n\u00e3o tem nada similar sendo discutido: a Conven\u00e7\u00e3o da Biodiversidade e a do Clima, a pr\u00f3pria Agenda 21, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De l\u00e1 para c\u00e1 existe, tanto na quest\u00e3o clim\u00e1tica quanto na biodiversidade, um processo de eros\u00e3o das decis\u00f5es que foram tomadas, as resolu\u00e7\u00f5es foram esvaziadas paulatinamente. A quest\u00e3o do clima se transformou depois na reuni\u00e3o de Copenhagen, que rigorosamente n\u00e3o tem mais nenhum tipo de compromisso internacional que seja levado a s\u00e9rio. E o governo estadunidense nunca entrou nos compromissos internacionais sobre a quest\u00e3o clim\u00e1tica. O resultado \u00e9 uma porcaria, e sequer envolve o compromisso dos estadunidenses em aplicar as tais resolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A constru\u00e7\u00e3o da quest\u00e3o ambiental est\u00e1 muito mais enfraquecida. A f\u00f3rmula da Rio+20 tem evitado fazer um balan\u00e7o do que aconteceu nos \u00faltimos 20 anos, e o balan\u00e7o \u00e9 lament\u00e1vel. Voc\u00ea tem algo oficioso pela ONU que pega todos os acordos feitos de 1992 para c\u00e1 e sucessivas reuni\u00f5es daquelas decis\u00f5es. Mas n\u00e3o tem nenhuma situa\u00e7\u00e3o de progresso internacional do ponto de vista objetivo, e nem do arcabou\u00e7o jur\u00eddico institucional que deveria reger essas mudan\u00e7as. Pelo contr\u00e1rio, e o resultado \u00e9 que houve uma acelera\u00e7\u00e3o do processo de aquecimento global. Na quest\u00e3o da biodiversidade, estamos perdendo esp\u00e9cies mais rapidamente, sobretudo porque entrou em jogo a produ\u00e7\u00e3o transg\u00eanica, que foi um arraso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 variedade gen\u00e9tica.<br \/>\nE v\u00e1rias outras coisas, como perdas de solo e \u00e1gua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>At\u00e9 que ponto vai a influ\u00eancia da participa\u00e7\u00e3o corporativa nas negocia\u00e7\u00f5es?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A iniciativa empresarial apagou o que estava acontecendo e simplesmente come\u00e7ou tudo de novo. Em 1992 instituiu-se a ideia de desenvolvimento sustent\u00e1vel, que sempre foi complicada. O princ\u00edpio era interessante, mas quando se define sustentabilidade cada um d\u00e1 a sua defini\u00e7\u00e3o. A Monsanto e a Coca Cola dizem que o que elas fazem \u00e9 sustent\u00e1vel, por exemplo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando voc\u00ea n\u00e3o tem um crit\u00e9rio estabelecendo um conceito universal, cada um faz e fala o que bem entende. Atualmente est\u00e1 sendo lan\u00e7ado um novo conceito de economia verde que, na pr\u00e1tica, \u00e9 mais do mesmo pintado de verde. Transg\u00eanicos e agrot\u00f3xicos s\u00e3o apresentados como economia verde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estamos num momento muito ruim do ponto de vista do destino da humanidade, porque os governos est\u00e3o extremamente enfraquecidos. Essa \u00e9 outra grande diferen\u00e7a de 92, quando havia uma expans\u00e3o da economia internacional que praticamente s\u00f3 fez acelerar at\u00e9 2008. Se voc\u00ea descontar a economia da China e da \u00cdndia, que ainda se mant\u00eam em expans\u00e3o acelerada, embora o ritmo tenha diminu\u00eddo, o resto do mundo est\u00e1 paralisado. N\u00e3o \u00e9 um bom momento para voc\u00ea falar em reformar o sistema e aplicar recursos para mudar a base produtiva, porque os governos n\u00e3o v\u00e3o mudar. Eles querem manter as coisas como est\u00e3o, e rezar para que o meio ambiente n\u00e3o reclame.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A tend\u00eancia \u00e9 que n\u00e3o ocorram avan\u00e7os na Rio+20?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os organizadores acham que n\u00e3o vai ter avan\u00e7o. O franc\u00eas Brice Lalonde, que \u00e9 secret\u00e1rio da Rio+20, disse em p\u00fablico que confiava na sociedade civil para agitar a Confer\u00eancia. Mas a sociedade civil n\u00e3o est\u00e1 imune aos problemas que o conjunto da economia mundial est\u00e1 passando. Muitas organiza\u00e7\u00f5es sociais est\u00e3o na defensiva tentando segurar os direitos conquistados ao longo de 50 anos, porque a contraofensiva patronal hoje na crise financeira \u00e9 para derrubar os direitos dos trabalhadores. A receita aplicada na Gr\u00e9cia \u00e9 a amea\u00e7a para todo mundo. E ao mesmo tempo as empresas n\u00e3o perdem nada, pelo contr\u00e1rio, com a amea\u00e7a de quebra o Estado sai bancando o preju\u00edzo. Os bancos s\u00e3o os primeiros benefici\u00e1rios, os grandes gerentes do sistema financeiro internacional continuam ganhando uma baba sem restri\u00e7\u00e3o nenhuma. Por outro lado, voc\u00ea tem muito mais capital de conhecimento acumulado pela sociedade civil, principalmente cient\u00edfico, nos temas chave de 1992 e hoje. A agroecologia ainda n\u00e3o tinha a seguran\u00e7a que tem para dizer que n\u00e3o \u00e9 uma aposta, e sim alternativa clara para o desenvolvimento. Experi\u00eancias apontam sa\u00eddas e solu\u00e7\u00f5es para a nossa crise s\u00f3cio- econ\u00f4mica-ambiental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou que a gente vive uma crise ambiental sem precedentes. Quais s\u00e3o as quest\u00f5es mais graves que a humanidade enfrenta hoje?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea tem dois tipos de riscos, um ambiental e outro econ\u00f4mico energ\u00e9tico. A quest\u00e3o ambiental mais grave, nos pr\u00f3ximos 50 anos, \u00e9 o aquecimento global, cujos efeitos s\u00e3o devastadores e em m\u00faltiplas dire\u00e7\u00f5es. Come\u00e7ando por desestabilizar o sistema produtivo agr\u00edcola de forma brutal, e tudo com consequ\u00eancia direta na seguran\u00e7a da humanidade. O aquecimento global pega pesadamente na qualidade da \u00e1gua e quantidade e qualidade de alimentos. A agricultura est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o dos problemas energ\u00e9ticos e do aquecimento global, mas ningu\u00e9m est\u00e1 discutindo o que vai acontecer do ponto de vista energ\u00e9tico nos pr\u00f3ximos tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das propostas da economia verde na energia \u00e9 voc\u00ea substituir combust\u00edveis f\u00f3sseis por e\u00f3lico, hidroel\u00e9trico, hidr\u00e1ulico, etc. Mas n\u00e3o \u00e9 discutido a fundo o quanto precisa fazer e em que velocidade para responder os problemas de queda na oferta de energia nos pr\u00f3ximos 30 anos. H\u00e1 uma avalia\u00e7\u00e3o cada vez mais generalizada de que a era do petr\u00f3leo e g\u00e1s est\u00e1 acabando, e as implica\u00e7\u00f5es s\u00e3o absolutamente colossais para a humanidade. N\u00e3o h\u00e1 ainda nenhuma alternativa verde que d\u00ea conta dessa perda. Os custos v\u00e3o ser muito mais altos, e a dificuldade de implanta\u00e7\u00e3o vai exigir um tempo de transi\u00e7\u00e3o muito grande. A crise vai pegar mesmo no f\u00edgado.<\/p>\n<p>E o Brasil est\u00e1 vindo com o pr\u00e9-sal na contra m\u00e3o da hist\u00f3ria&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s estamos achando petr\u00f3leo numa quantidade razo\u00e1vel porque as descobertas no mundo s\u00e3o cada vez menores e o consumo vem crescendo muito r\u00e1pido. A tend\u00eancia geral \u00e9 de queda e custos mais altos com impacto enorme na economia. Isso vai desorganizar a economia do mundo como um todo. O sistema alimentar mundial, hoje, tem um custo energ\u00e9tico monstruoso para produzir, processar, transportar e uma perda colossal no consumo. Tem desperd\u00edcio ao longo da cadeia, mas o desperd\u00edcio final, sobretudo nos pa\u00edses mais desenvolvidos, vai al\u00e9m de 30%. Dados apontam para um desperd\u00edcio de alimentos nos Estados Unidos \u00e9 dez vezes superior ao da \u00c1frica subsaariana. O sistema mundial foi bolado num per\u00edodo de baix\u00edssimo custo de transporte, com petr\u00f3leo a pre\u00e7o de banana. O custo m\u00e9dio nos Estados Unidos de um alimento normal no prato de um americano \u00e9 de 5 mil milhas de viagem. No Canad\u00e1 s\u00e3o 12 mil em m\u00e9dia, ent\u00e3o esse tipo de situa\u00e7\u00e3o vai ser completamente desarticulada e desorganizada. E se fizer biodiesel e \u00e1lcool combust\u00edveis, vai pegar na cadeia alimentar pesadamente. O Fidel Castro fez uma compara\u00e7\u00e3o dizendo que o \u00e1lcool combust\u00edvel, com esse neg\u00f3cio do biodiesel, \u00e9 botar em concorr\u00eancia a alimenta\u00e7\u00e3o do pobre com o carro do rico.<br \/>\nVoc\u00ea falou da crise clim\u00e1tica e uma crise energ\u00e9tica, e as duas est\u00e3o associadas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto voc\u00ea n\u00e3o tem uma solu\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica de combust\u00edveis f\u00f3sseis, a tend\u00eancia \u00e9 o mundo usar at\u00e9 o limite. Na medida em que o petr\u00f3leo est\u00e1 ficando caro, por exemplo, est\u00e1 voltando a se utilizar o carv\u00e3o que \u00e9 o maior emissor de gases de efeito estufa. \u00c9 um c\u00edrculo vicioso. A acelera\u00e7\u00e3o do processo de substitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode vir simplesmente pela extin\u00e7\u00e3o do que existe, voc\u00ea tem que antecipar com alguma solu\u00e7\u00e3o que evite uma situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica. Os recursos naturais renov\u00e1veis t\u00eam a ver, por exemplo, com as estruturas: \u00e1gua, solo, biodiversidade, que s\u00e3o altamente amea\u00e7adas. Nos anos 90 j\u00e1 tinha perda de aproximadamente 46% de toda a \u00e1rea cultivada em culturas anuais. S\u00e3o em torno de 2 bilh\u00f5es de hectares de \u00e1rea de cultivo, e em torno de 12% j\u00e1 est\u00e1 inviabilizado para produ\u00e7\u00e3o. Os \u00edndices mais pesados s\u00e3o os da agricultura convencional, o agroneg\u00f3cio, at\u00e9 porque s\u00e3o os que ocupam as melhores terras do mundo. E a \u00e1gua est\u00e1 acabando por v\u00e1rias raz\u00f5es, entre elas o aquecimento global, que est\u00e1 interferindo, por exemplo, nos sistemas de irriga\u00e7\u00e3o na \u00cdndia e em todos os pa\u00edses dos Andes. Estes dependem desde o tempo dos incas do derretimento da neve na esta\u00e7\u00e3o do ver\u00e3o para alimentar os rios e c\u00f3rregos para fazer irriga\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que atualmente voc\u00ea tem invernos em que n\u00e3o neva. Na \u00cdndia \u00e9 pior ainda, porque os glaci\u00e1rios do Himalaia est\u00e3o derretendo e quando acabar o Ganges seca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais experi\u00eancias prop\u00f5em uma alternativa para essa crise energ\u00e9tica e clim\u00e1tica que voc\u00ea est\u00e1 desenhando?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade n\u00e3o h\u00e1 nenhuma solu\u00e7\u00e3o elaborada que permita voc\u00ea dizer que tem um modelo econ\u00f4mico macro, em grande escala, que responda a essas quest\u00f5es mundialmente. Uma coisa fundamental que j\u00e1 vem sendo batida desde o relat\u00f3rio de 1972 \u00e9 a necessidade de alterar o modelo de consumo do mundo. A come\u00e7ar pelo consumo energ\u00e9tico como, por exemplo, a civiliza\u00e7\u00e3o do autom\u00f3vel individual que est\u00e1 condenada. Voc\u00ea tem que criar uma sociedade que funcione com o transporte p\u00fablico e circuitos mais econ\u00f4micos. Porque o autom\u00f3vel, em particular o dirigido por uma pessoa, \u00e9 uma das coisas de pior efici\u00eancia energ\u00e9tica que voc\u00ea pode achar no mundo. E outras coisas, como no consumo alimentar esse neg\u00f3cio da milhagem. A pessoa vai ter que se alimentar de acordo com o que \u00e9 poss\u00edvel produzir com a menor dist\u00e2ncia poss\u00edvel para ela consumir. Ent\u00e3o voc\u00ea vai alterar os regimes alimentares mundo afora, relocalizar o sistema alimentar e, inclusive, mudar as dietas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do ponto de vista da produ\u00e7\u00e3o, na agricultura o futuro \u00e9 claramente a agroecologia. \u00c9 um sistema de balan\u00e7o energ\u00e9tico positivo. Nos Estados Unidos, para cada caloria servida ao fregu\u00eas voc\u00ea investe 10. Com o sistema agroecol\u00f3gico voc\u00ea vai reduzir a emiss\u00e3o de gases de efeito estufa, segurar as quest\u00f5es de destrui\u00e7\u00e3o de solo e a economia no uso de \u00e1gua, al\u00e9m da conserva\u00e7\u00e3o de biodiversidade. A agroecologia pode ser operada em n\u00edveis muito variados. \u00c9 um sistema m\u00faltiplo de cultivos e cria\u00e7\u00f5es intercalados com vegeta\u00e7\u00e3o nativa manejado de uma forma sist\u00eamica. A estrat\u00e9gia da agroecologia \u00e9 mimetizar os sistemas naturais, voc\u00ea se aproxima da diversidade natural para usar o seu sistema produtivo. \u00c9 a melhor produtividade poss\u00edvel por \u00e1rea, mas tem uma s\u00e9rie de restri\u00e7\u00f5es. Para voc\u00ea manejar um sistema altamente diversificado e complexo, voc\u00ea vai precisar de m\u00e3o de obra qualificada. E vai ter um limite da quantidade de \u00e1rea por m\u00e3o de obra utilizada, pois s\u00e3o sistemas em que o n\u00edvel de mecaniza\u00e7\u00e3o \u00e9 baixo. Uma proposta agroecol\u00f3gica no limite de seu potencial de diversidade \u00e9, por exemplo, o sistema de Fukuoka, no Jap\u00e3o, cujo cultivo \u00e9 misturado dentro do mato. Tudo \u00e9 essencialmente manual, n\u00e3o tem absolutamente nenhuma opera\u00e7\u00e3o mecanizada. Mas voc\u00ea pode fazer coisas intermedi\u00e1rias, n\u00e3o deixa de ser agroecol\u00f3gico, mas certamente o n\u00edvel de efici\u00eancia \u00e9 menor pois o ideal \u00e9 o m\u00e1ximo de diversidade de sistema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para voc\u00ea fazer um sistema altamente produtivo de agroecologia vai precisar de agricultores familiares, que s\u00e3o os que t\u00eam interesse e conhecimento. N\u00e3o \u00e9 um sistema que opere bem com m\u00e3o de obra assalariada, pois esta s\u00f3 funciona com tarefas simples como cortar cana, colher ma\u00e7\u00e3, conduzir o gado, etc. Se voc\u00ea vai pedir uma tarefa extremamente complexa ele n\u00e3o tem interesse, porque vai ganhar igual por hora de trabalho. E \u00e9 o trabalho n\u00e3o alienado, com interesse direto de quem vive daquilo e de tudo que ele acumulou de conhecimento para fazer aquele neg\u00f3cio. H\u00e1 uma simbiose perfeita entre a agroecologia levada a seu limite m\u00e1ximo e a agricultura familiar. Isso significa que no futuro precisa de muito mais agricultura familiar do que voc\u00ea tem hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso \u00e9 uma solu\u00e7\u00e3o para o incha\u00e7o das cidades?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com certeza, mas a quest\u00e3o dos Estados Unidos, por exemplo, \u00e9 que eles t\u00eam 2 milh\u00f5es de agricultores e precisariam botar 38 milh\u00f5es no campo. N\u00e3o \u00e9 uma coisa que voc\u00ea fa\u00e7a de uma hora para outra, nem que fa\u00e7a bem. Quando a crise se colocar, eles v\u00e3o precisar de gente para produzir alimentos e n\u00e3o v\u00e3o ter, pois os desempregados nas cidades n\u00e3o t\u00eam conhecimento. Cuba \u00e9 um bom exemplo de crise energ\u00e9tica, pois viveu numa porrada s\u00f3 o que o mundo est\u00e1 vivendo aos pouquinhos: a perda da energia f\u00f3ssil. Eles dependiam do petr\u00f3leo russo para operar e de repente parou tudo do dia para noite, porque a agricultura era toda mecanizada. Eles tiveram que reformar o sistema produtivo de grandes fazendas mecanizadas em propriedades familiares cooperativas. O grande problema foi achar gente, \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o complicada porque se perdeu conhecimento. E a nossa situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica no Brasil \u00e9 um processo de perda de conhecimento muito grande, porque a reforma agr\u00e1ria estancou. No per\u00edodo do Lula houve uma evas\u00e3o violenta de juventude no campo, e quem \u00e9 que vai herdar o conhecimento e continuar a tocar as coisas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O agroneg\u00f3cio est\u00e1 bem estabelecido no campo brasileiro?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda tem uma \u00e1rea grande na m\u00e3o da agricultura familiar, mas a tend\u00eancia, at\u00e9 por press\u00e3o do governo, \u00e9 mecanizar isso tamb\u00e9m. Aquele programa &#8220;Mais alimentos&#8221;, que os movimentos chamam de &#8220;mais trator&#8221;, levou a mecaniza\u00e7\u00e3o pesada principalmente no sul. Mas em muitos lugares significou que o cara para mecanizar tem que fazer monocultura, imediatamente um puxa o outro. N\u00f3s temos um patrim\u00f4nio cultural e um campesinato bastante rico, mas estamos vivenciando um processo de eros\u00e3o de conhecimento e de abandono do campo. No meu c\u00e1lculo, para o Brasil seriam necess\u00e1rias 15 milh\u00f5es de fam\u00edlias para o desenvolvimento agroecol\u00f3gico, e atualmente a agricultura familiar deve ter 4,5 milh\u00f5es. No governo Lula voc\u00ea tinha expectativa de fortalecer a agricultura familiar e apertar um pouco os impactos do agroneg\u00f3cio, mas n\u00e3o aconteceu. O agroneg\u00f3cio est\u00e1 nadando de bra\u00e7ada e ganhou for\u00e7a, e querem impor o C\u00f3digo Florestal. Vamos ver se a Dilma vai ter coragem de vetar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea pode fazer uma radiografia da agroecologia no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A agroecologia deve ter cerca de 40 anos. O nosso programa foi um grande impulsionador da agroecologia no Brasil, quando come\u00e7ou em 1983 ainda era algo confinado a alguns profissionais das ci\u00eancias agr\u00e1rias isoladas. Uma garotada da Federa\u00e7\u00e3o dos Estudantes de Agronomia, os grupos de agricultura ecol\u00f3gica, era um tro\u00e7o pequeno. Naquela altura voc\u00ea tinha a agricultura org\u00e2nica na dire\u00e7\u00e3o da agroecologia com a biodin\u00e2mica. De l\u00e1 para c\u00e1 houve um avan\u00e7o muito grande da agroecologia, a Articula\u00e7\u00e3o Nacional de Agroecologia (ANA) \u00e9 uma express\u00e3o de movimento agroecol\u00f3gico significativo que envolve tudo: conhecimento tradicional, ind\u00edgena, inova\u00e7\u00f5es da agricultura familiar e cient\u00edfica, etc. Existem exemplos suficientes pelo pa\u00eds afora, n\u00e3o s\u00f3 em outros pa\u00edses do mundo, que mostram o sucesso da agroecologia. S\u00e3o v\u00e1rias sistematiza\u00e7\u00f5es que t\u00eam uma efici\u00eancia maior que o sistema tradicional. Existem \u00f3ticas e interpreta\u00e7\u00f5es variadas porque, por exemplo, tem \u00e1reas com uma influ\u00eancia maior do sistema de produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nico, que est\u00e1 mais preocupado em produzir para um nicho de mercado, pois paga mais caro, mas acho que limita um pouco o sistema de produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gico: poucos agricultores para poucos consumidores.<br \/>\nO sistema de agricultura org\u00e2nica no mundo padece desse impasse, porque o sistema de regula\u00e7\u00e3o, de certifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 um sistema de produ\u00e7\u00e3o de mercado em muitos lugares. Eu vi isso na Fran\u00e7a. Quando teve a crise da vaca louca houve um hiperaumento de demanda para produtos org\u00e2nicos. E o presidente da Federa\u00e7\u00e3o de Produtores de Agricultura Org\u00e2nica disse que estavam cheios de agricultores, mas o sistema de certifica\u00e7\u00e3o apertou os crit\u00e9rios de convers\u00e3o. Freou a capacidade de novos org\u00e2nicos entrarem no mercado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais as dificuldades da aproxima\u00e7\u00e3o da agricultura familiar com a agroecologia?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O agricultor familiar enfrenta muitas barreiras com a legisla\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria, porque \u00e9 montada para beneficiar grandes extens\u00f5es. E para convers\u00e3o de um agricultor \u00e0 agroecologia voc\u00ea precisa mostrar que o meio ambiente \u00e9 importante para ele produzir para ganhar. Frequentemente voc\u00ea entra com diminui\u00e7\u00e3o de custo de produ\u00e7\u00e3o, tirando o agrot\u00f3xico, produzindo com semente crioula e sem adubo qu\u00edmico. E a tend\u00eancia desses insumos \u00e9 aumentar a um ponto que o cara vai ver que esse sistema mais integrado n\u00e3o s\u00f3 vai reduzir os custos de produ\u00e7\u00e3o, como aumentar a produtividade. E, sobretudo, diminuir o risco. Aos poucos ele come\u00e7a a ver que os elementos ambientais jogam um papel no sistema agroecol\u00f3gico: primeiro deles \u00e9 a conserva\u00e7\u00e3o do solo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o o maior desafio da agroecologia \u00e9 a capacita\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Capacita\u00e7\u00e3o. E acho que tem uma quest\u00e3o pedag\u00f3gica, uma abordagem correta \u00e9 conseguir mostrar passo a passo que essas pr\u00e1ticas t\u00eam um impacto importante no ponto de vista de custo, de risco, de benef\u00edcio para sa\u00fade e econ\u00f4mico. Isso \u00e9 uma quest\u00e3o fundamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">***<br \/>\nJean Marc Von Der Weid \u00e9 economista e participou da ECO 92. Atualmente \u00e9 coordenador de Pol\u00edticas P\u00fablicas da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) e membro da Articula\u00e7\u00e3o Nacional de Agroecologia (ANA)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>por Eduardo S\u00e1, no Brasil de Fato.<\/em><\/p>\n<ul class=\"ssb_list_wrapper\"><li class=\"fb2\" style=\"width:135px\"><iframe src=\"\/\/www.facebook.com\/plugins\/like.php?href=https%3A%2F%2Fwww.caritasne2.org.br%2Fsite%2Fo-poder-do-agronegocio-sobre-os-estados-na-rio20%2F&amp;layout=button_count&amp;action=like&amp;show_faces=false&amp;share=true&amp;width=135&amp;height=21&amp;appId=307091639398582\" scrolling=\"no\" frameborder=\"0\" style=\"border:none; overflow:hidden;  width:150px; height:21px;\" allowTransparency=\"true\"><\/iframe><\/li><li class=\"twtr\" style=\"width:90px\"><a href=\"https:\/\/twitter.com\/share\" class=\"twitter-share-button\" data-url=\"https:\/\/www.caritasne2.org.br\/site\/o-poder-do-agronegocio-sobre-os-estados-na-rio20\/\">&nbsp;<\/a><script>!function(d,s,id){var js,fjs=d.getElementsByTagName(s)[0],p=\/^http:\/.test(d.location)?'http':'https';if(!d.getElementById(id)){js=d.createElement(s);js.id=id;js.src=p+':\/\/platform.twitter.com\/widgets.js';fjs.parentNode.insertBefore(js,fjs);}}(document, 'script', 'twitter-wjs');<\/script><\/li><li class=\"gplus\" style=\"width:68px\"><div class=\"g-plusone\" data-size=\"medium\" data-href=\"https:\/\/www.caritasne2.org.br\/site\/o-poder-do-agronegocio-sobre-os-estados-na-rio20\/\"><\/div><\/li><li class=\"ssb_linkedin\" style=\"width:64px\"><script src=\"\/\/platform.linkedin.com\/in.js\" type=\"text\/javascript\">lang: en_US<\/script><script type=\"IN\/Share\" data-url=\"https:\/\/www.caritasne2.org.br\/site\/o-poder-do-agronegocio-sobre-os-estados-na-rio20\/\" data-counter=\"right\"><\/script><\/li><\/ul>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com vasta experi\u00eancia na \u00e1rea agroecol\u00f3gica no Brasil, o economista Jean Marc Von Der Weid participou junto \u00e0 sociedade civil da ECO 92 e vem acompanhando desde a d\u00e9cada de 1980 os movimentos ambientais no Brasil. Atualmente \u00e9 coordenador de Pol\u00edticas P\u00fablicas da ONG Agricultura Familiar e Agroecologia (AS-PTA) e membro da Articula\u00e7\u00e3o Nacional de Agroecologia (ANA). 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